ADERBALIZANDO… –

Assistir à entrevista com Aderbal Freire Filho no programa “Provocações”, na tela da TV Cultura, com o apresentador Antônio Abujamra, principalmente num determinado trecho, foi como sentar em um banco de praça e ouvir um amigo desabafar sobre a vida — só que esse amigo tem uma voz risonha, mesmo falando sobre sentimentos terríveis, que poderia narrar até a receita de um miojo e ainda assim parecer uma comédia dramática. No meio da conversa, ele nos desafiou a pensar sobre algo que normalmente tentamos evitar: a finitude. E, olha, não é todo dia que alguém faz isso de forma tão intensa enquanto você está de pijama no sofá.

Aquele momento se transformou em uma confissão íntima — mas não daquelas que você conta no bar depois de algumas cervejas. Aderbal, com aquela habilidade de ator que faz o Shakespeare parecer um autor de novela das oito, exageros a parte, expôs um medo que todos nós temos: o medo da morte. Suas palavras cortavam o ar como uma faca afiada, mas não daquelas que você usa para abrir uma lata. Era uma angústia genuína! “Terrível não saber quando e não morrer vivo, morrer aos poucos é terrível…  não saber como será sua agonia, isso me desespera” E eu ali pensando: “Pelo amor de Deus, Aderbal, estou só tentando fazer pipoca!”

A verdade é que suas reflexões me atingiram como um balde de água fria em dia de sol. A morte, aquele tema tabu que faz todo mundo mudar de assunto na mesa do jantar, foi abordada com uma honestidade sorridente e comovente. O diretor nos convidou a olhar de frente para essa incerteza, como quem encara um espelho em vez de desviar o olhar. E quem nunca se pegou pensando: “E se eu tivesse mais um dia?” A resposta dele reverberou em mim como um eco numa caverna — só que sem o efeito sonoro.

Ao refletir sobre as palavras do Aderbal, percebi que a angústia diante do desconhecido é natural, mas dá pra dar uma chacoalhada nessa realidade! Afinal, a vida é um presente embrulhado em papel colorido e a morte é apenas mais um capítulo dessa jornada meio louca. O medo da morte é como aquele amigo chato que sempre aparece na festa: inevitável e meio incômodo.

Pensei: e se ao invés de deixar esse medo me paralisar, eu possa transformá-lo em combustível para viver intensamente? É, acho que deve ser por aí, aproveitar cada momento como se fosse o último pedaço de pizza na festa, o último balde de pipocas — porque, de fato, sabemos que ele vai acabar! As palavras do diretor só reforçam aquilo que já sabemos e temos como a maior certeza da vida, que ela é finita e cada instante deve ser celebrado. Então, bora deixar nossa marca no mundo antes que alguém venha limpar a mesa! Enquanto seu lobo não vem.

 

 

 

Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora dos livros As Esquinas da minha Existência e As Flávias que Habitam em Mim. crô[email protected]

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