É muito natural, Senhor Redator, que nos governos novos sejam fartas as razões do otimismo. Seria ruim se assim não fosse. A opção pela política é um ato essencialmente voluntário, mas, nem por isto, há de ser dispensável uma forte dose de espírito público. Some-se a este pequeno acervo de boas qualidades, a convivência da serenidade com o destemor. A primeira, é aquela que faz do governante alguém em quem se possa confiar; e a segunda, a coragem sem destempero para enfrentar os desafios.

Não temos tido governantes assim, sem serenidade, embora nos últimos tempos tenha faltado a boa temperança de uma confiança sem medo. O problema, é que a serenidade nem sempre é um bom orgulho. Mesmo serenos, há os que se despem facilmente das obrigações às vezes as mais comezinhas, como se o dever não fosse obrigação. E caem no culto à personalidade, envolvidos na bruma macia de um marketing feito não para exibir os compromissos cumpridos, mas endeusá-los de forma desabrida.

Até hoje a sociedade não conseguiu impor a esse marketing de culto pessoal qualquer forma de controle, como se o dinheiro para financiá-lo estivesse acima da vontade dos governantes. Não se trata de impor limites ou regulações a um livre-mercado cuja matéria prima é o talento e no qual os clientes, agências e veículos são sócios do mesmo negócio. É de direcionamento da propaganda governamental, posto que os cofres públicos não são mais as burras que antes se abriam às ordens do todo-poderoso.

Aliás, nas democracias modernas sequer há lugar para a figura do todo-poderoso. E quando um deles se arvora, seus dias são atormentados pelo sentimento de liberdade inerente à condição humana. É assombroso que no Século XXI ainda pareça fácil confundir a arte de liderar com força de governo. Com aquela sem-cerimônia dos que esperam milagres do marketing com base na comunicação, como se fosse fácil ao governante, num lance de magia, se desobrigar dos compromissos com os governados.

Esse tipo de líder, sem a tradição do saber e do saber-fazer, mesmo com capital circunstancial de votos, não vai muito longe, além da contratação de glórias artificialmente fabricadas. Sim, contrata, mas não é o bastante. Liderar não cabe naquela velha verdade popular do cavalo que passa selado e por isso basta montá-lo. Não. Nasce de vocação e aprendizado e se alicerça na capacidade de honrar uma declarada boa fé e a confiança nas boas idéias, aliadas à capacidade de execução dos compromissos.

Se fosse fácil liderar, bastaria ter veículos, blogs e portais berrando elogios aos quatro ventos. Ora, estamos saindo de um exemplo contundente que foi a campanha presidencial. O forte arsenal do governo não foi capaz de acender a aura de líder sobre a cabeça de sua candidata, mesmo conquistando a maioria. As urnas revelaram um quadro desafiador para a presidente no seu novo mandato: vitoriosa de votos, mas sem ter a confiança da classe média, o vetor do processo formador da opinião pública.

Vicente Serejo – Jornalista e Escritor

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