TAVOLAGEM E SIMILARES –

Reclamou-me uma amiga porque seu esposo assumiu a presidência de uma entidade de classe, denominada Sindicato dos Bares, Restaurantes, Hotéis e Similares. Não muito afeita ao que realmente se faz nessas áreas de entretenimento e hospedagem, ficou ela cavoucando acerca do que significariam esses “similares”. Imaginou que boa coisa não poderia ser. E deflagrou uma guerra contra o novo status do esposo. Confortei-a. Poderia abarcar tarefas simples, triviais para quem atua no setor de apoio turístico e de diversões. Pela cara, acho que não acreditou em mim.

Será que nela baixou o santo de desconfiança,  semelhante ao que atacou um tabaréu lá em Cuité? O caso eu conto com o caso foi .

Década dos sessentas. Estabelecido no Sítio Espinheiro, Bastinho mantinha colada à sua casa uma bodega, onde, ao início da noite, se reuniam as pessoas da comunidade rural. Bate-papo, uma cachacinha, um jogo de cartas. Certa feita o negócio não deu certo. Discussão entre dois amantes do carteado terminou em facada. Morreu um.

Cerca de dois anos depois houve o julgamento do homicida, pelo Tribunal Popular do Júri. À época a Comarca estava sem Promotor de Justiça fixo. Designaram para atuar na acusação o doutor Amauri Alcoforado, titular da promotoria de Areia. A brava população cuiteense acorreu em massa ao espetáculo forense, até mesmo animada pelos dotes de grande tribuno que tinha o acusador. Na primeira fila da plateia, os familiares do morto. Na segunda fila, os familiares do réu. E na terceira, uma corriola de amigos de todos, vindos em jipe fretado, lá do Sítio Espinheiro. Todos ouviam com atenção a peroração do empolgado homem do parquet, que a certa altura da fala disse assim: “Naquela casa onde se bebia; naquela casa onde se jogava! Era uma verdadeira casa de tavolagem!”.

Os matutos se entreolharam. Não esperavam  por aquilo! Um deles, mais saliente, voltando-se para o dono do boteco, indagou: “Compadre Bastinho,  isso quer dizer cabaré?”. A suspeita marcou o semblante do indagado, que baixou a cabeça e preferiu não responder. Arribou do cenário, conduzindo a comitiva, desimportando o resultado que tivesse o júri. Levou consigo a mesma incerteza que dominou a minha amiga letrada.

Será?

IVAN LIRA DE CARVALHO – Professor e Juiz Federal – ivanlira6@uol.com.br

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

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