URTIGA NA PROCISSÃO –

Domingo de Ramos. Celebração cristã que relembra a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, montado em um jumentinho, expressando simplicidade, diversamente dos poderosos que se escoravam em tesouros materiais conseguidos à custa do suor dos trabalhadores. Mas, como nem só de virtudes vivemos (daí a mortalidade, para permitir o julgamento final e a expiação das faltas) confesso um pecado (?) do qual espero indulgência até mesmo em razão da pouca idade dos transgressores.

Seguinte: em um domingo assim, a procissão em Cuité estava marcada por todos os devotos conduzindo um galho verde durante a caminhada sacra, organizada pelo vigário da época, Pe. Boleslaw Biernaski, um cura que tinha lá os seus rigores disciplinares, pois havia integrado o exército polonês durante a Segunda Guerra, defendendo a sua pátria das investidas nazistas. Para o evento acorriam pessoas da cidade e dos sítios.

Despreguei-me dos meus pais e misturei-me ao movimento, admirando os tipos que encontrava. Aquilo era a perfeita junção do sagrado com o profano, com a matutada envergando os seus melhores trajes e cheirando a perfume ordinário comprado a granel na barbearia de Zé Anulino.

A certa altura dei de cara com Braucílio Fonseca, meu colega de escola, de quem partiu a ideia de aproveitar aquela floresta ambulante para praticar algumas presepadas, consistentes em colher, com cuidado, galhos de urtiga e a despeito de nos passarmos por fiéis, tocarmos “sem querer” as folhas da venenosa planta nos braços ou nas pernas das matutas mais amostradas, para observarmos, de longe, os pinotes advindos dos calombos e da terrível coceira que aquilo gerava.

Assim foi feito em diversos locais da aglomeração. Tudo politicamente incorreto (ao olhar atual) e totalmente distanciado do discurso que o padre bradava na difusora. Mas a nossa risadaria era maior que isso.

Levarei as faltas para apresentá-las no juízo final, mas confio na absolvição. Argumentarei que tem gente por aí, hoje em dia, fazendo coisa muito mais feia e ainda posando de ético e condenador das imperfeições alheias. Quem sabe darão a esta minha confissão espontânea o peso que estão atribuindo, na terra, às delações premiadas… Pelo menos isso!

 

IVAN LIRA DE CARVALHO – Professor e Juiz Federal

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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